Muitas pessoas que sofrem com queda de cabelo acabam por gastar bastante dinheiro em vitaminas e suplementos. Mas será que funcionam mesmo? Neste artigo vou explicar, de forma simples e clara, quais os suplementos que podem ajudar e em que situações.
É importante distinguir dois aspetos frequentemente confundidos quando falamos de vitaminas e suplementos para o cabelo. Por um lado, é verdade que alguns nutrientes têm um papel fundamental na fisiologia capilar, e que a sua deficiência pode contribuir para a queda de cabelo. No entanto, por outro lado, isso não significa que a suplementação traga benefício em pessoas com níveis normais.
Na maioria dos casos, especialmente na alopecia androgenética (calvície comum), não se justificam análises laboratoriais de rotina. A investigação laboratorial só faz sentido quando há suspeita de défices nutricionais ou de alterações sistémicas subjacentes. É fundamental distinguir entre a alopecia androgenética, de evolução progressiva e padrão típico, e os eflúvios telógenos, que se caracterizam por uma queda difusa e muitas vezes súbita. Nestes últimos — os eflúvios —, pode ser útil solicitar análises para despistar causas tratáveis.
Nesses contextos específicos, podemos considerar avaliar:
Apesar de ter um papel importante na saúde da pele, visão e do cabelo, o excesso pode ser prejudicial. A suplementação desnecessária pode levar a toxicidade, com sintomas como náuseas, alterações hepáticas e, em alguns casos, queda de cabelo.
Isto é particularmente relevante em pessoas que usam medicamentos derivados da vitamina A, como a isotretinoína (frequentemente utilizada no tratamento do acne), onde a queda de cabelo pode surgir como efeito adverso.
Esta vitamina atua diretamente no folículo piloso, através dos recetores de vitamina D (VDR) presentes nas células da papila dérmica. Participa na fase de crescimento do cabelo (fase anágena) e ajuda a regular o sistema imunitário, o que é relevante em casos de alopecias inflamatórias, como a alopecia areata ou certas alopecias cicatriciais.
Atualmente, uma grande parte da população apresenta níveis insuficientes de vitamina D. No entanto, isso não significa que todas as pessoas devam ser suplementadas. Em situações de défice grave — sobretudo quando os níveis estão próximos ou abaixo de 10 ng/mL —, estudos mostram uma associação com eflúvio telógeno, ou seja, queda difusa do cabelo. Nestes casos, a suplementação é recomendada. Também pode ser útil quando o paciente está medicado com corticosteroides como no caso de algumas alopecias cicatriciais ou na alopecia areata.
A biotina é uma vitamina hidrossolúvel do complexo B, presente em alimentos como ovos, frutos secos, sementes, peixes gordos e leguminosas. Tem uma função reconhecida na manutenção da saúde da pele, cabelo e unhas, sendo amplamente promovida como suplemento capilar.
No entanto, a deficiência de biotina é extremamente rara em pessoas saudáveis, uma vez que a ingestão diária média pela alimentação varia entre 30 a 75 microgramas, o que é geralmente suficiente. Carências significativas podem ocorrer em situações como alcoolismo, síndromes de má absorção, uso prolongado de antibióticos ou anticonvulsivantes, tabagismo excessivo e durante a gravidez.
Em alguns estudos, observaram-se níveis mais baixos de biotina em mulheres com eflúvio telógeno e alopecia androgenética, mas ainda não está provado que a suplementação traga benefício nestes casos quando não há défice real.
A suplementação habitual ronda os 30 microgramas por dia, valor semelhante à ingestão alimentar típica. Como é uma vitamina hidrossolúvel, o organismo tende a eliminar o excesso pela urina, e não foram descritos efeitos tóxicos relevantes mesmo com doses elevadas.
Em suma, a biotina pode ter papel importante apenas quando existe carência comprovada. Não há, até hoje, estudos clínicos robustos que demonstrem benefício da sua suplementação em indivíduos com níveis normais.
A vitamina B12 é essencial para a formação dos glóbulos vermelhos, síntese de ADN e função neurológica adequada. Tem também um papel indireto na saúde do cabelo, devido à sua influência na renovação celular.
As carências são pouco comuns, mas podem surgir em situações como dietas vegetarianas ou veganas, doenças intestinais, uso prolongado de certos medicamentos ou idade avançada.
Nestes casos, deve-se proceder a avaliação laboratorial. A suplementação só está indicada quando existe défice comprovado, e pode ser útil na correção de eflúvios associados a carência nutricional.
O ácido fólico é importante na divisão celular, produção de glóbulos vermelhos e na manutenção de tecidos de renovação rápida, como o epitélio folicular.
A deficiência, embora rara, pode ocorrer em gravidez, dietas desequilibradas, alcoolismo ou problemas intestinais com má absorção.
Tal como na B12, é fundamental avaliar os níveis por análise laboratorial. A suplementação deve ser reservada para situações de carência confirmada, podendo ajudar a reduzir a queda quando esta está relacionada com défice vitamínico.
A vitamina C (ácido ascórbico) é uma vitamina hidrossolúvel com ação antioxidante e um papel importante em várias funções biológicas relevantes para o cabelo, ainda que de forma indireta.
Um dos seus principais contributos é facilitar a absorção intestinal do ferro, especialmente o ferro não-heme (de origem vegetal), sendo por isso frequentemente recomendada em associação com suplementos de ferro. Em situações de deficiência de ferro, a vitamina C pode potenciar os efeitos da reposição.
A carência de vitamina C é rara em países desenvolvidos, mas pode ocorrer em casos de alimentação muito desequilibrada, alcoolismo ou má absorção intestinal. Em tais casos, a suplementação pode ser benéfica como parte de uma estratégia nutricional mais ampla.
A vitamina E é um antioxidante lipossolúvel que ajuda a proteger as células contra o stress oxidativo. Apesar da sua importância geral para a saúde, não há evidência científica que comprove benefícios diretos da sua suplementação na queda de cabelo em pessoas com níveis adequados. A carência é rara e o excesso pode ser prejudicial.
O ferro é um mineral essencial para o crescimento e regeneração do cabelo, uma vez que participa na oxigenação dos tecidos e na divisão celular dos folículos.
A deficiência de ferro é uma das causas mais comuns de queda de cabelo, sobretudo em mulheres em idade fértil, devido às perdas menstruais regulares, que podem originar anemia ferropénica.
Os valores de ferritina considerados “normais” na maioria dos laboratórios situam-se entre 10 e 300 ng/mL. No entanto, do ponto de vista capilar, valores abaixo de 50 ng/mL podem ser insuficientes, mesmo sem anemia estabelecida. Muitos especialistas sugerem que, para a saúde do cabelo, a ferritina deve idealmente manter-se acima dos 50 a 70 ng/mL.
A absorção do ferro oral pode ser otimizada quando tomada com vitamina C, por exemplo com um copo de sumo de laranja. Por outro lado, o leite e derivados podem inibir essa absorção, pelo que devem ser evitados na mesma refeição.
Em casos de défice comprovado por análises, deve ser iniciada suplementação de ferro, que pode ser feita por via oral ou, em casos selecionados, por via injetável.
Importa referir que muitos dos polivitamínicos específicos para a queda capilar têm doses de ferro demasiado baixas para corrigir eficientemente uma carência — sendo necessária uma formulação adequada e, idealmente, sob orientação médica.
O zinco é um oligoelemento essencial muito discutido na medicina capilar e estética, devido ao seu papel em processos celulares fundamentais como a divisão celular, ciclagem folicular e resposta antioxidante.
Atua como cofator enzimático em mais de 300 reações, incluindo na regulação da 5α-redutase, enzima envolvida na conversão da testosterona em DHT — hormona relevante na alopecia androgenética (AAG). Tem também efeitos anti-inflamatórios e pode ajudar a proteger o ambiente ao redor do folículo.
Alguns estudos observaram níveis baixos de zinco em pacientes com eflúvio telógeno, sugerindo que a carência pode estar associada à queda de cabelo difusa. No entanto, não há evidência de que a suplementação seja benéfica em pessoas com níveis normais.
A suplementação é geralmente segura nas doses recomendadas (8–11 mg/dia para adultos), mas doses elevadas ou prolongadas podem causar efeitos adversos, como náuseas, défice de cobre, fadiga e alterações imunológicas.
Por isso, só deve ser suplementado em casos de défice laboratorialmente confirmado, uma vez que os níveis ótimos de zinco para a função capilar ainda não estão claramente definidos.
O selénio é um oligoelemento essencial com ação antioxidante, envolvido na regulação do sistema imunitário e na proteção contra o stress oxidativo celular.
No entanto, o excesso de selénio pode associar-se a queda de cabelo, além de outros sintomas como fragilidade das unhas, alterações gastrointestinais e fadiga. Não há qualquer evidência do benefício da sua suplementação para a queda de cabelo
Nenhuma vitamina ou suplemento isolado demonstrou eficácia clara no tratamento da queda de cabelo se não houver deficiência comprovada.
Carências de ferro, vitamina D, zinco, biotina, vitamina B12 ou ácido fólico podem, sim, contribuir para a queda provocando um Efluvío Telegeno, pelo que nestes casos pode ser aconselhada a sua suplementação.